terça-feira , 2 junho 2026
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Atlas da Violência aponta queda de homicídios mas alerta para apagão de dados no Brasil

O Brasil registrou 42.590 homicídios no ano de 2024, atingindo o menor patamar de assassinatos dos últimos 11 anos. Os dados, revelados pela nova edição do Atlas da Violência, consolidam uma redução de 6,9% no número absoluto de mortes em comparação ao período anterior. O estudo é fruto de uma cooperação técnica entre o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgada nesta terça-feira, 26.

A taxa nacional fixou-se em 20,1 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes. Apesar do recuo estatístico, pesquisadores e autoridades de segurança pública mantêm um tom de cautela. O relatório aponta que a melhoria nos indicadores pode estar mascarada por falhas graves na coleta e no processamento de informações oficiais em diversas unidades da federação, o que compromete a leitura real da criminalidade no país.

Atlas da Violência revela menor índice de assassinatos em uma década

A retração nos números de criminalidade letal em 2024 é atribuída a uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. Segundo os técnicos do Ipea, a queda foi impulsionada por melhorias na gestão de segurança nos Estados e acordos de trégua entre facções criminosas rivais. Além disso, o envelhecimento da população brasileira desempenha um papel demográfico relevante, uma vez que os jovens continuam sendo os alvos principais da violência urbana.

Embora o resultado oficial seja celebrado por gestores públicos, o patamar atingido é o menor da série histórica desde 2013. A redução não foi uniforme em todo o território nacional, revelando que o crime segue concentrado em províncias específicas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. O monitoramento contínuo dessas áreas é considerado essencial para manter a tendência de queda nos próximos anos.

Subnotificação e mortes indeterminadas geram alerta de apagão de dados

Um dos pontos mais críticos do novo relatório é o avanço das chamadas mortes violentas por causa indeterminada (MVCI). Os pesquisadores alertam que o número de 42,5 mil mortes deve ser analisado com extrema cautela. Esses casos referem-se a homicídios ocultos provocados por laudos mal preenchidos, sumiço de cadáveres ou falhas no repasse de informações entre as delegacias de polícia e o sistema de saúde.

As ocorrências sem identificação de autoria ou motivo explícito dispararam 88,6% no país, saltando de 3.755 para 7.083 registros. Com o uso de inteligência computacional para recalcular esses dados camuflados, os técnicos estimam que o volume real de assassinatos no Brasil pode ultrapassar 49,6 mil casos. Esse cenário anularia quase toda a redução comemorada, evidenciando um preocupante apagão de dados nos institutos de perícia.

Disparidade regional coloca Amapá e São Paulo em extremos opostos

A geografia da violência no Brasil permanece heterogênea. O estado do Amapá lidera a lista de letalidade nacional com uma taxa alarmante de 45,7 mortes por 100 mil moradores. Logo atrás aparecem a Bahia com 40,9, Pernambuco com 37,3, Alagoas com 35,9 e o Ceará com 34,3. No recorte de variação anual, apenas o Maranhão e o Ceará apresentaram aumento real de criminalidade.

No outro extremo, o estado de São Paulo ostenta o ambiente mais seguro da federação, com uma taxa de 6,6 homicídios por 100 mil cidadãos. Outros estados com bons indicadores institucionais incluem:

  • Santa Catarina com taxa de 8,1;
  • Distrito Federal registrando 10,3;
  • Minas Gerais com índice de 12,8;
  • Rio Grande do Sul apresentando 15,2.

Estratégias de segurança e a necessidade de integração institucional

O coordenador do estudo, Daniel Cerqueira, defende que o combate ao crime organizado exige a integração de ações policiais de repressão rápida com investimentos pesados em prevenção social. Para o especialista, o governo precisa utilizar a ciência para mapear as manchas de criminalidade e evitar que falhas administrativas ocultem a realidade da violência. A transparência dos dados é vista como o primeiro passo para políticas públicas eficazes.

A análise detalhada pode ser conferida no portal oficial do Ipea, que disponibiliza os microdados para consulta pública. O desafio para os próximos ciclos envolve não apenas a redução da letalidade, mas a recuperação da confiança nas estatísticas oficiais, garantindo que cada morte violenta seja devidamente investigada e contabilizada pelo Estado brasileiro.

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