A agressiva política externa do governo Trump, conhecida como Doutrina Donroe, tem sido apontada como um fator de desestabilização crescente na América Latina. Uma recente análise da organização de monitoramento de violência ACLED, compartilhada com o Intercept dos EUA, revela que as intervenções diplomáticas e militares na região, considerada por Trump como o “quintal dos EUA”, estão gerando mais violência, aumentando a impunidade entre as forças de segurança locais e agravando os perigos representados por cartéis e facções em todo o hemisfério ocidental.
Especialistas alertam que a pressão dos Estados Unidos sobre o crime organizado está impulsionando a disseminação de abordagens de segurança militarizadas na região. Sandra Pellegrini e Tiziano Breda, analistas sênior para a América Latina no ACLED, afirmam que a crescente volatilidade do ecossistema do crime organizado tende a intensificar a violência durante o restante do governo Trump, possivelmente comprometendo qualquer melhoria de curto prazo que possa ser obtida com estratégias de linha dura.
A Doutrina Donroe e a militarização da segurança regional
O presidente dos EUA, Donald Trump, tem implementado uma política que, segundo críticos, transformou o hemisfério ocidental em uma zona de conflito. Essa abordagem, apelidada de Doutrina Donroe, é uma reinterpretação da Doutrina Monroe de 1823 e serve como justificativa para uma série de ações controversas. Entre elas, destacam-se ataques contra barcos civis no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico, a intervenção na Venezuela e o sequestro de seu presidente, operações da CIA no México, e as operações conjuntas de combate a cartéis no Equador, conhecidas como “Operação Extermínio Total”. Além disso, houve um aumento significativo nas operações militares e de inteligência em outras partes da América Latina.
Escalada da violência e fragmentação de grupos criminosos
A análise do ACLED aponta que, nos países onde as fontes de receita dos cartéis são mais diversificadas, a adoção de estratégias de segurança militarizadas resultou em consequências contraproducentes. Em vez de enfraquecer os grupos, houve uma fragmentação e intensificação da concorrência entre eles. No Equador, por exemplo, a captura ou morte de líderes de gangues levou a uma proliferação de grupos dissidentes, com o número de gangues subindo de 24 em 2023 para 37 no final do ano passado. A extradição de José Adolfo Macías, líder da gangue Los Choneros, para os Estados Unidos, permitiu que o grupo rival Los Lobos invadisse seus redutos, incitando ainda mais violência.
Os cartéis também estão adotando táticas de guerra aérea leve, inspiradas nas estratégias militares dos EUA durante a Guerra ao Terror. Grupos no México e na Colômbia utilizam drones armados contra as forças de segurança, buscando maximizar o impacto de seus ataques e minimizar os custos de confrontos diretos. No México, os ataques com drones por cartéis aumentaram 567% entre 2023 e 2025. Na Colômbia, esse crescimento foi ainda mais alarmante, com um aumento de 10.600%, passando de um ataque em 2023 para pelo menos 107 em 2025.
Ataques remotos e impunidade: o custo humano da estratégia
A campanha de ataques a barcos, conduzida pelos militares dos EUA no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico, resultou em 62 ataques a supostos barcos de drogas desde setembro de 2025, causando a morte de 205 civis. O incidente mais recente, em 30 de maio no Oceano Pacífico, vitimou três pessoas. As forças de segurança regionais alinhadas aos EUA também estão empregando formas de violência remota, como bombardeios aéreos e o uso de drones por forças-tarefa especiais no Haiti. Essas táticas expõem civis a ataques, elevando drasticamente o número de mortes decorrentes de conflitos entre gangues e forças de segurança.
Pellegrini e Breda destacam que a promoção de uma “resposta linha dura à criminalidade” em toda a região, aliada a um “clima de impunidade”, tem levado a uma violência estatal descontrolada. As operações realizadas pelas forças de segurança mataram quase 6.900 pessoas no ano passado, o maior número registrado desde 2018.
Pressão diplomática e resistência à Doutrina Donroe
Em linha com a Doutrina Donroe, o governo Trump tem exercido pressão sobre diversas nações. O Panamá foi reiteradamente intimidado, e ameaças foram dirigidas ao Canadá, à Colômbia, à Groenlândia e, possivelmente, à Islândia. Cuba também tem sido alvo de crescentes ameaças. Procuradores federais da Flórida divulgaram uma denúncia acusando o ex-líder cubano Raúl Castro e outras cinco pessoas pela derrubada de dois aviões pelas forças armadas cubanas, ocorrida há 30 anos. O governo também tem alegado que a pequena nação insular representa uma ameaça militar.
No entanto, parlamentares do Partido Democrata têm resistido a essa escalada, alertando que o governo pode estar criando um pretexto para justificar uma invasão. O deputado Jim Himes, do Partido Democrata de Connecticut e principal representante do partido na Comissão de Inteligência da Câmara dos EUA, expressou preocupação. “O regime cubano é terrível, mas não é uma ameaça maior à segurança nacional do que a Nicarágua. É simplesmente insano dizer que seja, especialmente se isso é feito em benefício de uma ação militar”, afirmou Himes, sublinhando a controvérsia em torno da justificativa para tais ações. A análise completa da ACLED pode ser consultada aqui.
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