terça-feira , 9 junho 2026
Divulgação/Oeste
Reprodução Revistaoeste

Estado contemporâneo: a expansão do poder e os desafios da constituição social-democrata

O estado moderno, inicialmente concebido para centralizar o poder político e assegurar a ordem básica, passou por uma significativa transformação após a Segunda Guerra Mundial. Essa evolução deu origem ao que se conhece como estado contemporâneo, um modelo que transcende as funções limitadas do Estado liberal clássico. Enquanto o ideal liberal buscava um “estado-vigia” focado na segurança, justiça, proteção da propriedade e cumprimento de contratos, a versão contemporânea assume um papel muito mais abrangente, prometendo organizar a sociedade, corrigir desigualdades e garantir uma vasta gama de direitos sociais.

A constituição social-democrata, em contraste com a tradição liberal, não visa primordialmente conter o poder estatal, mas sim empoderar instituições e indivíduos para guiar a sociedade em direção à justiça social. Este arranjo busca conciliar a eficiência da economia de mercado com a intervenção estatal para redistribuição de riqueza e expansão de direitos, gerando um debate profundo sobre os limites e as consequências dessa expansão.

A visão liberal e a economia de mercado

Para a perspectiva liberal, a economia de mercado é o alicerce de um arranjo social pautado por ganhos mútuos e cooperação pacífica. Neste sistema, a propriedade privada, a orientação dos preços, a atração de lucros e a disciplina das perdas atuam como incentivos cruciais, fornecendo sinais para o aprendizado social contínuo dos participantes. A ordem liberal busca estabelecer um arcabouço institucional que promova a autonomia e a oportunidade individual, sem permitir a dominação excessiva do espaço público ou privado.

Os liberais enfatizam a inviolabilidade dos direitos civis, incluindo o direito à propriedade. Eles defendem que o poder do Estado deve ser estritamente limitado por um Estado de direito, garantindo que mesmo “homens maus” no poder causem o mínimo dano possível. A Constituição, sob essa ótica, serve como um instrumento para restringir o governo, não para expandir suas prerrogativas.

O estado contemporâneo e a agenda social-democrata

O estado contemporâneo, impulsionado pela ideologia social-democrata, rejeita a ideia de que o mercado é um árbitro justo para a justiça social. Argumenta-se que o Estado não apenas é mais eficiente em lidar com as dinâmicas sociais, mas também possui a responsabilidade inerente de intervir para expandir a agenda dos direitos sociais, possibilitar a redistribuição de renda e, em última instância, alcançar a justiça social. Essa abordagem legitima a busca por um bem-estar coletivo através da intervenção estatal.

A Constituição, nesse contexto, desempenha um papel fundamental ao garantir serviços públicos e justificar a atuação do Estado em diversas esferas da vida social. Um exemplo clássico dessa tensão é a interpretação do direito à propriedade privada. Enquanto a visão liberal a considera inviolável, a social-democracia, embora aceite sua existência, condiciona-a à sua função social, como expresso em artigos constitucionais. No Brasil, o Artigo 5º, inciso XXII, garante o direito à propriedade privada, mas o inciso XXIII estabelece que a propriedade atenderá à sua função social, criando um contrapeso direto.

A multiplicação de obrigações e poderes estatais

A transformação de quase toda aspiração social em direito constitucional no Brasil resulta em uma multiplicação das obrigações e poderes do Estado. Se o Estado deve fornecer uma vasta gama de direitos, ele precisa, consequentemente, planejar, tributar, fiscalizar, regular e distribuir. Esse ciclo inevitavelmente leva à criação de burocracias complexas, critérios, exceções, subsídios e mecanismos de coerção. O direito positivado, neste ponto, revela sua natureza coercitiva como ferramenta para implementar essas obrigações.

Essa estrutura institucional pode gerar um incentivo perverso: a busca incessante por um “salvador da pátria” que, com um plano “genial”, possa guiar a sociedade. A disputa pelo poder executivo torna-se intensa, pois as regras atuais não garantem que a chegada de líderes mal-intencionados ao governo resulte em danos mínimos. A preocupação principal passa a ser a conquista do poder, em vez de sua limitação. Para aprofundar a compreensão sobre o conceito de Estado, pode-se consultar este artigo.

Engenharia social e a captura do aparato estatal

O estado contemporâneo pode se tornar uma ferramenta de engenharia social, onde a Constituição social-democrata, em vez de conter essa tendência, a legitima. Isso amplia a dependência da sociedade em relação ao poder público, muitas vezes entregando resultados opostos aos prometidos. A história demonstra que poderes concedidos em nome do interesse público podem ser capturados por interesses privados. Regulações destinadas a proteger consumidores podem, na prática, resguardar empresas estabelecidas de novos concorrentes. Da mesma forma, leis trabalhistas podem inadvertidamente excluir os mais vulneráveis do mercado de trabalho, e subsídios podem beneficiar grupos empresariais com conexões políticas.

Nesse cenário, a sociedade pode deixar de buscar soluções através da cooperação voluntária, da concorrência, da responsabilidade individual e da inovação. A economia de ganhos mútuos é substituída por um jogo político de soma zero, onde o ganho de um partido ocorre à custa do outro. A civilidade é erodida, e a filiação partidária pode se tornar a base para a distribuição de “espólios”, deslocando o interesse para a captura do aparato estatal e transformando a política no caminho mais lucrativo, em detrimento da ordem espontânea.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *