Um levantamento recente do Atlas da Violência, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta um cenário alarmante sobre a distribuição da criminalidade letal no Brasil. Em 2024, metade de todos os homicídios registrados no país concentrou-se em um grupo restrito de apenas 99 municípios. Embora essas cidades representem uma pequena parcela do total de mais de 5,5 mil municípios brasileiros (1,8%), elas abrigam uma parcela significativa da população nacional, cerca de 43,4%.
Os dados revelam uma intensificação da concentração da violência, um padrão que se mostra mais acentuado em comparação com edições anteriores do estudo. Essa análise aprofundada não apenas quantifica as mortes violentas, mas também busca desvendar as dinâmicas geográficas e demográficas por trás desses números, oferecendo um panorama crucial para a compreensão dos desafios da segurança pública no país.
A Geografia dos Homicídios: Concentração em Poucos Centros
Em 2024, o Brasil registrou um total de 42,5 mil homicídios, resultando em uma taxa de 20,1 casos por 100 mil habitantes. No entanto, a metodologia do Atlas da Violência vai além dos registros oficiais, estimando também as mortes violentas de causa indeterminada para incluir assassinatos não registrados, os chamados “homicídios ocultos”. Com esse ajuste, o número total de mortes violentas no país sobe para 49,6 mil, elevando a taxa nacional para 23,4 por 100 mil habitantes.
A concentração da violência em poucos centros urbanos tem se acentuado. Edições anteriores do Atlas indicaram que 165 cidades concentraram metade dos homicídios no ano anterior, e 162 em 2022. A redução para 99 municípios em 2024 sinaliza que as políticas de segurança e o combate ao crime precisam considerar essa focalização geográfica para serem mais eficazes.
Regiões Críticas e Cidades de Médio Porte
As regiões Norte e Nordeste continuam a registrar os maiores índices de violência no país. O Amapá destacou-se com a maior taxa de homicídios, atingindo 47,1 casos por 100 mil habitantes, seguido de perto pelo Ceará (43,7) e pela Bahia (42,6). Em contraste, os estados das regiões Sul, Sudeste e o Distrito Federal apresentaram as menores taxas, evidenciando uma disparidade regional persistente na segurança pública.
Um achado relevante do estudo é que a violência mais intensa não se restringe necessariamente às grandes metrópoles. Municípios de porte intermediário, com população entre 100 mil e 500 mil habitantes, registraram uma taxa média de homicídios superior à das capitais. Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza (CE), exemplifica essa tendência, apresentando a maior taxa de homicídios entre as cidades com mais de 100 mil habitantes, em um contexto de disputa territorial entre facções criminosas como o Comando Vermelho (CV) e os Guardiões do Estado. Dos dez municípios mais violentos desse porte, quatro estão no Ceará e seis na Bahia, com Jequié (BA) ocupando a segunda posição. Entre as capitais, Salvador (BA) registrou o maior índice, com 52,7 casos estimados para cada 100 mil habitantes.
Perfil das Vítimas e Divergências Estatísticas sobre Homicídios
O perfil das vítimas de homicídios em 2024 manteve um padrão preocupante: jovens, homens e negros continuam sendo os mais afetados. A faixa etária de 15 a 29 anos concentrou 46,5% das vítimas no país, com uma média diária de 54 jovens mortos violentamente, sendo 51 deles homens. Esses números sublinham a vulnerabilidade de segmentos específicos da população frente à violência.
É importante notar que as estimativas do Atlas da Violência apresentam divergências em relação às estatísticas oficiais do governo. Enquanto o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) registrou 42,5 mil homicídios e o Ministério da Justiça computou 43,3 mil mortes violentas intencionais, o Atlas, ao reclassificar os registros de mortes violentas por causa indeterminada, obteve um total ajustado de 49,6 mil. Essa diferença, que supera 14%, é atribuída à metodologia do Ipea, que identifica os “homicídios ocultos” baseando-se em características de milhões de registros desde 1996.
A Metodologia do Atlas e os “Homicídios Ocultos”
A metodologia empregada pelo Ipea para o Atlas da Violência busca oferecer uma visão mais abrangente da realidade da violência letal no Brasil. Ao analisar padrões históricos de mortes por causas indeterminadas, os pesquisadores conseguem identificar casos que, embora não classificados inicialmente como homicídios, possuem características consistentes com crimes intencionais. Essa abordagem visa preencher lacunas nos dados oficiais e fornecer uma estimativa mais próxima da realidade.
Em termos de tendência, o Atlas indica uma estabilidade nos índices de assassinatos, com uma queda de apenas 0,3%. Este dado contrasta com as reduções mais expressivas apontadas pelo SIM (7,4%) e pelo Ministério da Justiça (5%), reforçando a importância de se considerar diferentes metodologias na análise da segurança pública. Para mais detalhes sobre a metodologia e os dados completos, consulte o Atlas da Violência.
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