terça-feira , 2 junho 2026
Foto: Reprodução/Instagram/@dceusp
Foto: Reprodução/Instagram/@dceusp

Movimento estudantil: táticas de ocupação e o impacto na ordem acadêmica

A cena de um portão derrubado e pisoteado, com a inscrição “SAÍDA” visível em uma faixa, marcou um dos episódios recentes de tensão em universidades públicas brasileiras. A imagem, divulgada pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) em 8 de maio, ilustra a escalada de um protesto na Universidade de São Paulo (USP), onde cerca de 400 discentes ocuparam a frente do prédio da reitoria. Este evento, que culminou na invasão e depredação de parte do edifício, reflete um padrão crescente de mobilizações estudantis que utilizam táticas de ocupação e paralisação para pressionar as administrações universitárias.

O incidente na USP não é um caso isolado, mas parte de um cenário mais amplo de ativismo estudantil que, em muitos momentos, se entrelaça com agendas políticas e gera debates sobre a autonomia universitária, a segurança do patrimônio público e o direito à educação dos demais alunos. As ações, frequentemente classificadas como “pacíficas” pelos organizadores, têm levado a intervenções policiais e discussões acaloradas sobre os limites da manifestação.

Ações do movimento estudantil na USP: ocupação e intervenção

Na USP, a mobilização dos estudantes, que exibiam bandeiras de entidades como o DCE, símbolos do “movimento antifascista” e camisetas de organizações políticas como o Partido Comunista Revolucionário (PCR), tinha como objetivo forçar a retomada de discussões com a administração. O reitor da USP, Aluísio Segurado, havia encerrado as negociações dias antes, mas os alunos buscavam pressionar por pautas específicas.

Após a invasão do prédio da reitoria, localizado no bairro Butantã, na zona oeste da capital paulista, o grupo manteve piquetes e barracas por quatro dias. A situação se agravou na madrugada de 10 de maio, quando o fornecimento de água e energia elétrica foi cortado por policiais militares. Em uma operação de desocupação, cerca de 50 agentes retomaram o controle do edifício, apreendendo drogas e armas brancas, como facas, canivetes, estiletes, bastões e porretes. Quatro estudantes foram detidos e liberados no mesmo dia.

O padrão das ocupações: casos pelo país

A dinâmica observada na USP ecoa em diversas outras instituições de ensino superior pelo Brasil. Nos últimos anos, universidades públicas têm sido palco de sucessivas paralisações, ocupações e invasões de prédios administrativos, muitas vezes promovidas por movimentos estudantis ligados a DCEs, centros acadêmicos e correntes políticas associadas à União Nacional dos Estudantes (UNE).

Em julho de 2024, estudantes da UERJ, no Rio de Janeiro, ocuparam a reitoria em protesto contra mudanças em bolsas e auxílios permanência, bloqueando acessos com móveis e montando barricadas. A reitoria classificou o episódio como “sequestro” do prédio, e a desocupação só ocorreu após decisão judicial e ação da tropa de choque da PM. Na UnB, em Brasília, paralisações e ocupações pontuais foram registradas em 2025 e 2026, com relatos de pressão política em assembleias para adesão aos movimentos.

Outros exemplos incluem a UFSC (Santa Catarina) e a UFRGS (Rio Grande do Sul) em 2024, onde bloqueios de acessos e ocupações administrativas interromperam as atividades acadêmicas. Na Unicamp (Campinas-SP), em 2023 e 2026, estudantes promoveram paralisações e ocupações por pautas de permanência estudantil e moradia. Mesmo em universidades privadas, como a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, houve ocupações em março e abril de 2025, resultando em intervenção judicial e danos ao patrimônio. Tais casos demonstram a adoção de métodos que se assemelham ao sindicalismo político, gerando constrangimento e receio entre estudantes que divergem das pautas ou táticas.

Debate sobre as pautas e o custo acadêmico

No cerne das reivindicações na USP estava o pedido de aumento do valor do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (Papfe). Os estudantes, que já usufruem de ensino gratuito e auxílios, exigem que o valor mensal seja equivalente a um salário mínimo paulista, de R$ 1.804, além de melhorias na qualidade da alimentação e das moradias gratuitas, redução do controle da reitoria sobre os espaços e cotas para trans e indígenas.

Apesar das demandas, a interrupção das atividades acadêmicas gera preocupação. Uma estudante da USP, que preferiu não se identificar, expressou seu descontentamento: “Já chegamos na metade do mês de maio e o tempo de greve quase se iguala ao tempo das aulas do semestre. Vim de outro Estado para estudar, sinto que estou desperdiçando o dinheiro que minha família paga para eu me manter em São Paulo.” A fala ilustra o dilema enfrentado por muitos alunos que veem seu ano letivo comprometido pelas paralisações.

A politização dos espaços universitários e suas consequências

A fusão entre movimentos estudantis e o discurso da esquerda não é um fenômeno recente no Brasil, especialmente em universidades públicas. Com bandeiras de organizações políticas e partidos em suas manifestações, os estudantes frequentemente utilizam a greve como plataforma para discutir projetos políticos. Exemplos incluem União da Juventude Socialista (ligada ao PCdoB), ParaTodos (PT), Juntos! (Psol), Correnteza (Unidade Popular), Afronte! (Psol), RUA (PCB/independentes) e UJC/MUP (PCB).

Embora muitas vezes se apresentem sob o apelo democrático, as ações de paralisação podem comprometer o calendário acadêmico e o aprendizado dos demais estudantes. A Faculdade de Direito da USP, o histórico Largo de São Francisco, por exemplo, amanheceu em 24 de abril tomada por piquetes de cadeiras e cones de sinalização. A reportagem de Oeste visitou o local, que estava escuro, com colaboradores terceirizados realizando a limpeza, enquanto estruturas de ferro bloqueavam a entrada do prédio, outrora lar intelectual de figuras como Ruy Barbosa e Lygia Fagundes Telles.

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