Os pedidos de recuperação judicial no Brasil têm sido um tema recorrente nas discussões econômicas, refletindo os desafios enfrentados pelo setor empresarial. Esse movimento, que ganhou destaque nos últimos meses, é impulsionado por um cenário complexo de juros elevados, consumo retraído, restrição de crédito e aumento dos custos operacionais. Tais fatores têm levado empresas de diversos portes e segmentos a buscar amparo legal para reestruturar suas finanças e evitar a falência.
Ao analisar a série histórica de dados da Serasa Experian, um padrão se revela: os momentos de maior intensidade nos pedidos de recuperação judicial coincidem com períodos específicos de governos, notadamente as administrações de Dilma Rousseff, Michel Temer e Luiz Inácio Lula da Silva. Essa correlação sugere que crises econômicas, políticas monetárias e decisões governamentais deixam marcas profundas na saúde financeira das empresas, cujas consequências podem se estender por anos.
A trajetória dos pedidos durante os governos Dilma e Temer
A década de 2010 foi marcada por um aumento significativo nos processos de recuperação judicial. Durante o governo de Dilma Rousseff, nos anos de 2015 e 2016, o país registrou um total de 3.150 pedidos. Desse montante, 1.287 foram protocolados em 2015 e 1.863 em 2016, estabelecendo o que, na época, representou o maior patamar da série histórica. Esse período foi caracterizado por uma forte recessão econômica, que impactou diretamente a capacidade de pagamento e a sustentabilidade das empresas. O movimento ocorre em um contexto de juros elevados, consumo pressionado, restrição de crédito e aumento dos custos operacionais, fatores que têm levado empresas de diferentes segmentos a buscar proteção legal para evitar a falência.
A tendência de números elevados persistiu na gestão de Michel Temer. Em 2017, foram contabilizados 1.420 pedidos, seguidos por 1.408 em 2018. O total para o biênio alcançou 2.828 recuperações judiciais, indicando que o ambiente de negócios continuava desafiador, com empresas ainda sentindo os efeitos das crises anteriores e a necessidade de reestruturação para se manterem ativas no mercado.
Redução e desafios enfrentados na gestão Bolsonaro
Um período de relativa desaceleração nos pedidos de recuperação judicial foi observado durante o governo de Jair Bolsonaro. Houve uma diminuição consistente nos indicadores, começando com 1.387 pedidos em 2019, seguido por 1.179 em 2020, 891 em 2021 e 833 em 2022. O total para os quatro anos somou 4.290 processos.
É crucial considerar que este período abrangeu a pior pandemia da história recente, que gerou uma das mais graves crises econômicas globais. Apesar do cenário catastrófico que levou milhares de empresas à falência e impôs consequências danosas no pós-pandemia, os dados da recuperação judicial mostraram uma tendência de queda, o que pode ser atribuído a diferentes fatores, incluindo medidas de apoio governamental e a adaptação das empresas a um novo contexto operacional.
Acelerada alta nos processos de recuperação judicial no governo Lula
No terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, os números de pedidos de recuperação judicial voltaram a apresentar uma aceleração notável. Em 2023, foram registrados 1.405 pedidos, e em 2024, o país atingiu um recorde histórico com 2.273 processos. Em apenas dois anos, o total chegou a 3.678 recuperações judiciais, superando os patamares observados em períodos anteriores.
A tendência de alta se consolidou em 2025, quando os pedidos continuaram em nível recorde. A atualização da série da Serasa Experian indicou 977 processos de recuperação judicial, um aumento de 5,5% em relação a 2024 e o maior volume anual desde 2016. Utilizando a nova metodologia do indicador, foram contabilizadas 2.466 empresas (CNPJs) envolvidas em recuperações judiciais ao longo do ano, estabelecendo um novo recorde histórico.
O impacto da recuperação judicial no cenário empresarial brasileiro
A recuperação judicial é um mecanismo legal essencial, concebido para permitir que empresas endividadas reorganizem suas finanças, renegociem débitos com credores e, assim, preservem suas operações, empregos e ativos. Teoricamente, oferece uma segunda chance para negócios em dificuldade. Contudo, o aumento acelerado desses pedidos frequentemente sinaliza um ambiente econômico deteriorado e crescentes obstáculos para a sustentação das atividades empresariais.
O cenário atual, com um crescimento expressivo nos pedidos, coloca o governo sob maior escrutínio. Apesar do foco em crescimento econômico e reindustrialização, muitas empresas ainda lutam para equilibrar custos financeiros, expandir receitas e manter margens operacionais saudáveis. Grandes marcas conhecidas do consumidor brasileiro, como Starbucks, Bombril, Casa do Pão de Queijo, Subway, Tok&Stok, Polishop, Estrela, 123 Milhas, Ricardo Eletro, Casa & Video, Mobly e Coteminas, já figuram em processos de recuperação judicial ou reestruturação, enfrentando desafios como mudanças no comportamento de consumo, endividamento elevado, competição digital e desaceleração econômica.
A capacidade de sobreviver no mercado brasileiro tornou-se uma tarefa cada vez mais complexa. Além das discussões políticas, a proliferação das recuperações judiciais aponta para um problema estrutural que demanda soluções eficazes. É fundamental que se restabeleça a previsibilidade econômica, a confiança empresarial e condições mais favoráveis para aqueles que impulsionam a produção e a geração de empregos no país.
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