terça-feira , 9 junho 2026
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Recuperação judicial: picos históricos marcam ciclos econômicos sob diferentes governos

Os pedidos de recuperação judicial no Brasil têm sido um tema recorrente nas discussões econômicas, refletindo os desafios enfrentados pelo setor empresarial. Esse movimento, que ganhou destaque nos últimos meses, é impulsionado por um cenário complexo de juros elevados, consumo retraído, restrição de crédito e aumento dos custos operacionais. Tais fatores têm levado empresas de diversos portes e segmentos a buscar amparo legal para reestruturar suas finanças e evitar a falência.

Ao analisar a série histórica de dados da Serasa Experian, um padrão se revela: os momentos de maior intensidade nos pedidos de recuperação judicial coincidem com períodos específicos de governos, notadamente as administrações de Dilma Rousseff, Michel Temer e Luiz Inácio Lula da Silva. Essa correlação sugere que crises econômicas, políticas monetárias e decisões governamentais deixam marcas profundas na saúde financeira das empresas, cujas consequências podem se estender por anos.

A trajetória dos pedidos durante os governos Dilma e Temer

A década de 2010 foi marcada por um aumento significativo nos processos de recuperação judicial. Durante o governo de Dilma Rousseff, nos anos de 2015 e 2016, o país registrou um total de 3.150 pedidos. Desse montante, 1.287 foram protocolados em 2015 e 1.863 em 2016, estabelecendo o que, na época, representou o maior patamar da série histórica. Esse período foi caracterizado por uma forte recessão econômica, que impactou diretamente a capacidade de pagamento e a sustentabilidade das empresas. O movimento ocorre em um contexto de juros elevados, consumo pressionado, restrição de crédito e aumento dos custos operacionais, fatores que têm levado empresas de diferentes segmentos a buscar proteção legal para evitar a falência.

A tendência de números elevados persistiu na gestão de Michel Temer. Em 2017, foram contabilizados 1.420 pedidos, seguidos por 1.408 em 2018. O total para o biênio alcançou 2.828 recuperações judiciais, indicando que o ambiente de negócios continuava desafiador, com empresas ainda sentindo os efeitos das crises anteriores e a necessidade de reestruturação para se manterem ativas no mercado.

Redução e desafios enfrentados na gestão Bolsonaro

Um período de relativa desaceleração nos pedidos de recuperação judicial foi observado durante o governo de Jair Bolsonaro. Houve uma diminuição consistente nos indicadores, começando com 1.387 pedidos em 2019, seguido por 1.179 em 2020, 891 em 2021 e 833 em 2022. O total para os quatro anos somou 4.290 processos.

É crucial considerar que este período abrangeu a pior pandemia da história recente, que gerou uma das mais graves crises econômicas globais. Apesar do cenário catastrófico que levou milhares de empresas à falência e impôs consequências danosas no pós-pandemia, os dados da recuperação judicial mostraram uma tendência de queda, o que pode ser atribuído a diferentes fatores, incluindo medidas de apoio governamental e a adaptação das empresas a um novo contexto operacional.

Acelerada alta nos processos de recuperação judicial no governo Lula

No terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, os números de pedidos de recuperação judicial voltaram a apresentar uma aceleração notável. Em 2023, foram registrados 1.405 pedidos, e em 2024, o país atingiu um recorde histórico com 2.273 processos. Em apenas dois anos, o total chegou a 3.678 recuperações judiciais, superando os patamares observados em períodos anteriores.

A tendência de alta se consolidou em 2025, quando os pedidos continuaram em nível recorde. A atualização da série da Serasa Experian indicou 977 processos de recuperação judicial, um aumento de 5,5% em relação a 2024 e o maior volume anual desde 2016. Utilizando a nova metodologia do indicador, foram contabilizadas 2.466 empresas (CNPJs) envolvidas em recuperações judiciais ao longo do ano, estabelecendo um novo recorde histórico.

O impacto da recuperação judicial no cenário empresarial brasileiro

A recuperação judicial é um mecanismo legal essencial, concebido para permitir que empresas endividadas reorganizem suas finanças, renegociem débitos com credores e, assim, preservem suas operações, empregos e ativos. Teoricamente, oferece uma segunda chance para negócios em dificuldade. Contudo, o aumento acelerado desses pedidos frequentemente sinaliza um ambiente econômico deteriorado e crescentes obstáculos para a sustentação das atividades empresariais.

O cenário atual, com um crescimento expressivo nos pedidos, coloca o governo sob maior escrutínio. Apesar do foco em crescimento econômico e reindustrialização, muitas empresas ainda lutam para equilibrar custos financeiros, expandir receitas e manter margens operacionais saudáveis. Grandes marcas conhecidas do consumidor brasileiro, como Starbucks, Bombril, Casa do Pão de Queijo, Subway, Tok&Stok, Polishop, Estrela, 123 Milhas, Ricardo Eletro, Casa & Video, Mobly e Coteminas, já figuram em processos de recuperação judicial ou reestruturação, enfrentando desafios como mudanças no comportamento de consumo, endividamento elevado, competição digital e desaceleração econômica.

A capacidade de sobreviver no mercado brasileiro tornou-se uma tarefa cada vez mais complexa. Além das discussões políticas, a proliferação das recuperações judiciais aponta para um problema estrutural que demanda soluções eficazes. É fundamental que se restabeleça a previsibilidade econômica, a confiança empresarial e condições mais favoráveis para aqueles que impulsionam a produção e a geração de empregos no país.

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