quinta-feira , 18 junho 2026
A crise política no Peru se aprofunda com Keiko Fujimori liderando a eleição. Entenda a instabilidade crônica e o legado do fujimorismo.

Crise política no Peru: Keiko Fujimori lidera eleição em cenário de instabilidade crônica

trás desta instabilidade, mesmo quando não teve maioria no Congresso, tem sido o
Roberto Sánchez e Keiko Fujimori disputam o segundo turno no Peru

O Peru encontra-se novamente em um ponto crucial de sua trajetória política, com a candidata Keiko Fujimori, do partido Força Popular, à frente na disputa eleitoral. Com a apuração de 99% das urnas, Fujimori lidera com uma margem de 1% sobre seu oponente, Roberto Sánchez, da Juntos pelo Peru, conforme dados do Escritório Nacional de Processos Eleitorais. Este cenário eleitoral se desenrola em um contexto de profunda instabilidade e erosão institucional que tem marcado o país sul-americano nas últimas décadas.

A frase “Amo meu país, me envergonha o congresso”, vista em cartazes de manifestações, sintetiza o sentimento de desilusão popular. Desde a renúncia do então presidente Pedro Pablo Kuczynski em 2018, o Peru testemunhou uma sucessão vertiginosa de líderes, com oito presidentes em oito anos. Muitos foram destituídos por impeachment ou pela pressão das ruas, e a força política conhecida como fujimorismo tem sido uma constante por trás dessa turbulência, mesmo sem sempre deter a maioria no Congresso.

Eleição acirrada e o legado do antifujimorismo

A atual candidatura de Keiko Fujimori representa sua quarta tentativa de alcançar a presidência, após derrotas em segundo turno em 2011, 2016 e 2021. Em todas as ocasiões anteriores, o que se destacou foi a força do que é conhecido como “antifujimorismo”, um movimento de oposição consolidado. Desta vez, seu adversário é Roberto Sánchez, um psicólogo e ex-seminarista com identificação com a esquerda e que atuou como ministro do último presidente eleito, Pedro Castillo.

Apesar de contar com o apoio de setores da classe dominante e da política, Keiko Fujimori tem enfrentado um escasso apoio popular direto. Por sua vez, Sánchez, embora tenha superado um candidato de extrema direita por uma pequena margem no primeiro turno, não conseguiu mobilizar as massas de forma expressiva após a queda de Castillo. O primeiro turno da eleição foi marcado por uma fragmentação aguda, com 35 candidatos e a mais votada obtendo apenas 17% dos votos, refletindo uma divisão profunda no eleitorado.

Aprofundamento da instabilidade e a ‘prisão presidencial’

A credencial de Sánchez como ex-ministro de Pedro Castillo, cujo mandato (2021-2023) terminou em uma tentativa de autogolpe, destituição e prisão, é vista por muitos como duvidosa. Castillo, agora detido na “prisão presidencial” de Barbadillo, nos arredores de Lima, junta-se a outros três ex-presidentes que também cumpriram pena: Alejandro Toledo, Ollanta Humala e Martín Vizcarra. Este cenário ilustra a profundidade da crise institucional que o Peru enfrenta.

A instabilidade política se manifesta não apenas na alternância de poder, mas também na percepção de que o voto em Sánchez, muitas vezes, não é um apoio entusiástico a ele, mas sim um voto estratégico contra o fujimorismo. Para compreender a complexidade dessa situação, é essencial revisitar as origens do autoritarismo e da polarização que moldaram a política peruana.

Origens do autoritarismo popular: o fujimorismo histórico

O Peru foi pioneiro no continente em um modelo de autoritarismo popular, personificado por Alberto Fujimori (1990-2000). Eleito com a promessa de não aplicar um “choque” econômico, Fujimori implementou o “Fujishock” e, em 1992, realizou um autogolpe, dissolvendo o parlamento e intervindo no judiciário. Esta ação ocorreu em um período de grande desordem, com inflação galopante e o terrorismo do Sendero Luminoso.

A estabilização econômica e a repressão ao terrorismo, embora controversas, renderam a Fujimori uma popularidade que, em parte, explica o apoio herdado por seus filhos. Seu regime também lançou as bases para o extrativismo mineiro que impulsionou a economia do país, mas também acentuou a corrosão do tecido social. Desde a década de 1970, nenhum presidente peruano conseguiu eleger seu sucessor, e as promessas de mudança dos candidatos de oposição raramente foram cumpridas, impedindo o avanço de um progressismo estabilizador.

A criminalização da esquerda e os desafios da política peruana

A política peruana também foi marcada pela criminalização da esquerda, com a prática do “terruqueo”, que rotula militantes como terroristas. Diferentemente de outros países sul-americanos que vivenciaram a “onda rosa” no início do século XXI, o Peru, assim como a Colômbia, não teve um movimento progressista que desempenhasse um papel estabilizador. Isso impediu que forças como o Movimento Ao Socialismo (MAS) na Bolívia ou o Alianza País no Equador tivessem um equivalente no país.

A continuidade da alternância de poder, sem reformas estruturais, corroeu a legitimidade das instituições políticas. A presidência de Kuczynski, que venceu Keiko Fujimori por uma margem mínima em 2016, ilustra essa dinâmica. Kuczynski, impotente diante da influência do fujimorismo no Congresso, concedeu um indulto ao ex-ditador Alberto Fujimori para evitar um impeachment, em uma decisão que se revelou uma “vitória de Pirro”. Ele acabou renunciando em 2018 e, posteriormente, foi detido em investigações relacionadas a casos de corrupção, incluindo os envolvendo a Odebrecht, que resultaram em obras como o “Cristo de lo robado” em Lima.

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