O cenário do mercado de entregas no Brasil, por anos dominado por um único player, agora se vê no centro de uma intensa disputa que transcendeu os aplicativos e chegou aos tribunais. Com a entrada de novos concorrentes e investimentos significativos no setor, a rivalidade entre as plataformas de delivery ganha contornos de um embate jurídico, com acusações graves de espionagem corporativa.
Nesse contexto, a gigante brasileira iFood moveu uma ação judicial contra a Keeta, plataforma controlada pelo grupo chinês Meituan, alegando práticas de espionagem corporativa e concorrência desleal. O caso, que tramita em São Paulo, revela a complexidade e a ferocidade da competição em um dos mercados mais dinâmicos do país.
Alegações de busca por informações estratégicas
O processo movido pelo iFood detalha que consultorias teriam abordado funcionários da empresa, oferecendo pagamentos em troca de informações estratégicas e confidenciais sobre suas operações. Essas abordagens, segundo a acusação, visavam obter dados sensíveis que poderiam beneficiar um concorrente direto no mercado.
A investigação interna do iFood teria identificado um ex-funcionário que aceitou participar de reuniões remuneradas com uma consultoria sediada em Xangai. Em depoimento, o indivíduo teria admitido o compartilhamento de informações consideradas cruciais para a estratégia e o funcionamento da empresa.
Para aprofundar as apurações, o iFood abriu uma ação nos Estados Unidos contra a plataforma Zoom. O objetivo era identificar os participantes das videoconferências onde as supostas informações foram trocadas. Os registros obtidos por meio dessa ação teriam revelado acessos vinculados a endereços de e-mail com o domínio @meituan.com, associado ao grupo controlador da Keeta, reforçando as suspeitas.
Ações judiciais e investigações em andamento
A ação judicial em São Paulo não busca apenas que a Keeta cesse as supostas práticas, mas também exige o pagamento inicial de R$1 milhão por danos morais. Este valor, conforme o processo, pode ser ajustado e aumentado à medida que novas apurações e evidências forem apresentadas ao longo do trâmite legal.
O caso ganhou a atenção das autoridades, resultando em uma investigação policial. Essa etapa incluiu a busca e apreensão de dispositivos eletrônicos ligados ao ex-funcionário identificado pelo iFood, como parte das diligências para coletar provas e esclarecer os fatos. A empresa afirma ter indícios de que mais de 240 colaboradores foram contatados por consultorias ao longo do último ano, principalmente através da plataforma LinkedIn, e não descarta novas investigações internas e ações judiciais.
A defesa da Keeta e o cenário competitivo
Em resposta às acusações, a Keeta emitiu uma nota negando qualquer irregularidade. A empresa afirmou que não contrata terceiros para abordar pessoas em seu nome com os objetivos descritos pelo iFood. Além disso, declarou seguir a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e atuar em conformidade com a legislação brasileira, ressaltando que não foi formalmente notificada sobre o processo.
A entrada da Keeta no mercado brasileiro de delivery, há aproximadamente um ano, foi marcada por um investimento inicial próximo de 1 bilhão de dólares. A plataforma mirava justamente um setor amplamente dominado pelo iFood, intensificando a concorrência e a dinâmica de mercado.
Histórico de alegações mútuas de espionagem
Curiosamente, a própria Keeta já havia reportado ter sido alvo de ações semelhantes no passado. Em novembro do ano anterior, a empresa relatou suspeitas de espionagem durante o início de suas operações na Baixada Santista. Na ocasião, a Polícia Civil investigava denúncias de abordagens a restaurantes feitas por pessoas que utilizavam credenciais falsas para obter dados internos da operação da Keeta.
Este histórico de acusações mútuas sublinha a alta competitividade e a sensibilidade do mercado de delivery, onde informações estratégicas podem representar uma vantagem significativa. A disputa judicial entre iFood e Keeta, portanto, não é apenas um embate legal, mas um reflexo da intensa batalha por fatia de mercado e liderança no setor. Mais detalhes sobre o caso podem ser encontrados em portais de notícias especializados, como o Valor Econômico.
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