terça-feira , 2 junho 2026
Foto: Reprodução/Wikimedia
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Identidade política no Brasil: como o tribalismo substitui laços econômicos e culturais

O cenário político brasileiro tem testemunhado, nos últimos anos, uma transformação notável: a evolução das preferências políticas para identidades políticas arraigadas. Milhões de indivíduos deixaram de ser meros apoiadores sazonais de ideias ou candidatos para se enxergarem como membros permanentes de comunidades. Essas comunidades são definidas por símbolos, líderes, narrativas e, crucialmente, por inimigos comuns, forjando um senso de pertencimento que transcende a simples adesão a um partido ou ideologia.

Este fenômeno ajuda a explicar a crescente relativização de erros cometidos pelo próprio grupo, enquanto condutas idênticas são veementemente condenadas quando praticadas por adversários. Observa-se também a tendência de indivíduos abandonarem convicções anteriores para se adequarem à posição dominante de sua comunidade, e a forma como críticas internas são frequentemente tratadas como traição. Para compreender essa dinâmica contemporânea, um instrumento teórico clássico, embora não concebido para esta realidade específica, oferece uma lente valiosa: a análise de Karl Marx sobre a subordinação da identidade à necessidade psicológica de pertencimento coletivo.

A visão de Marx: da consciência de classe à identidade

Karl Marx argumentava que a formação de uma classe social ia além da mera semelhança de renda ou posição no processo produtivo. Ele postulava a necessidade de uma transição de uma condição objetiva para uma percepção subjetiva compartilhada. A classe em si representava uma situação material comum, onde indivíduos possuíam um estado econômico similar.

Contudo, a verdadeira força coletiva surgiria com a classe para si, momento em que os indivíduos passariam a perceber interesses, dificuldades e objetivos históricos comuns. Nesse estágio, a ação deixaria de ser isolada e individual para se manifestar como parte de uma entidade maior, com a consciência individual sendo progressivamente absorvida por uma consciência coletiva. Embora a revolução proletária universal não tenha se concretizado como Marx previu, e o capitalismo tenha demonstrado uma adaptabilidade notável, a essência de sua análise sobre a necessidade de absorção da consciência individual pelo coletivo merece uma releitura moderna.

A metamorfose do pertencimento: da economia à tribo política

O mecanismo descrito por Marx parece ter persistido, mas se deslocou para um novo campo. O que antes era construído a partir da posição econômica hoje emerge cada vez mais a partir de identidades políticas e culturais. No Brasil atual, a adesão a grupos como petistas ou bolsonaristas transcende a simples preferência eleitoral, adquirindo contornos existenciais profundos.

O sujeito contemporâneo, muitas vezes, deixa de questionar

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