terça-feira , 2 junho 2026
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Mediocridade no ensino é apontada como causa da queda das universidades brasileiras em ranking

O desempenho das instituições de ensino superior do Brasil no cenário internacional sofreu um revés significativo. Segundo o levantamento global de 2026 realizado pelo Centro Mundial de Ranking de Universidades (CWUR), 45 das 52 universidades brasileiras presentes na lista registraram queda em suas posições em comparação ao ano anterior. O estudo, que avaliou 21,2 mil instituições ao redor do mundo, coloca em xeque a qualidade acadêmica e a gestão das entidades nacionais.

universidades: cenário e impactos

Enquanto a consultoria responsável pelo ranking atribui o retrocesso a anos de financiamento inadequado e à desvalorização da educação como bem público, especialistas divergem sobre as causas estruturais desse declínio. A análise aponta para uma crise que transcende a simples escassez de recursos, envolvendo questões de mérito, modelo de gestão e diretrizes curriculares.

A crítica ao modelo de gestão e a busca por mérito

Ilona Becskeházy, doutora em Educação e ex-secretária de Educação Básica do Ministério da Educação, contesta a tese de que a falta de verbas seja o fator determinante para o resultado. Segundo a especialista, a metodologia do CWUR baseia-se em indicadores de sucesso acadêmico, influência e produção científica, nenhum dos quais mensura diretamente o aporte financeiro das instituições.

Como exemplo, a especialista cita a discrepância entre a Unicamp e a Unesp. Embora ambas possuam orçamentos bilionários e sejam geridas pelo governo do Estado de São Paulo, apresentam uma diferença de 100 posições no ranking. Para Becskeházy, o sistema educacional brasileiro está alinhado a uma mediocridade que ignora o mérito e a competitividade.

Impacto da expansão acadêmica na qualidade científica

A análise de Becskeházy sugere que o modelo de expansão adotado nas últimas décadas, focado em novos campi, aumento de vagas e políticas de cotas, priorizou o volume em detrimento da qualidade. A ex-secretária afirma que o sistema atual prioriza a garantia de gastos e empregos, mascarando a incompetência acadêmica sob o discurso da inclusão.

Essa visão crítica se estende à produção científica, especialmente na área de humanas. Segundo a especialista, a falta de domínio do idioma inglês e o isolamento de grupos de pesquisa impedem que pesquisadores brasileiros alcancem maior relevância internacional ou participem de debates globais de alto nível, restringindo a produção a nichos internos.

Raízes institucionais e o papel do Conselho Nacional de Educação

O debate sobre a qualidade do ensino superior também alcança o Conselho Nacional de Educação (CNE). De acordo com a especialista, a estrutura do órgão, que concentra indicações políticas e acadêmicas, é um dos pontos centrais para a perpetuação das dificuldades enfrentadas pelas universidades. Ela enfatiza que as diretrizes curriculares carregam a marca de gestões anteriores e de grupos que, segundo sua avaliação, não priorizam a excelência.

Apesar do cenário negativo, o Brasil ainda mantém uma posição de liderança na América Latina, superando instituições como a Universidade Nacional Autônoma do México. No topo da lista mundial, a Universidade Harvard permanece na liderança pelo 15º ano consecutivo, enquanto a China consolida seu avanço, superando os Estados Unidos em número de instituições entre as 2 mil melhores, conforme dados disponíveis em CWUR.

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