terça-feira , 2 junho 2026
los Estados Unidos como terroristas, incluyendo el Cártel de Sinaloa de México
Reprodução Intercept

Operação da DEA na Colômbia: como uma ação secreta criou nova insurgência e abalou a paz

A administração Trump, em janeiro, lançou uma operação de bombardeios visando o ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, formalmente acusado de traficar drogas para enriquecer sete organizações designadas pelos Estados Unidos como terroristas. Entre elas, o Cartel de Sinaloa do México, o Exército de Libertação Nacional (ELN) colombiano e um grupo insurgente pouco conhecido: a Segunda Marquetalia. Contudo, a história da Segunda Marquetalia, um grupo de militantes colombianos baseado na fronteira com a Venezuela, revela uma origem peculiar: sua formação foi, em parte, um desdobramento de uma operação do próprio governo estadunidense.

Fundada em 2019 por ex-líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a Segunda Marquetalia surgiu após uma operação encoberta da Administração para o Controle de Drogas (DEA) dos EUA. Essa ação descarrilou o frágil processo de paz colombiano, empurrando um negociador-chave das FARC de volta ao narcotráfico e à selva, e, eventualmente, para os braços do governo venezuelano. Em uma manobra que ecoa políticas desastrosas dos EUA na América Latina ao longo de décadas, as ações da Segunda Marquetalia foram, em parte, usadas para justificar a incursão militar americana em Caracas, que resultou em mortes e na detenção de Maduro e sua esposa.

A Estratégia da Guerra às Drogas e Seus Adversários Políticos

No último ano, a administração Trump intensificou agressivamente as operações antinarcóticos com fins políticos, envolvendo as forças armadas dos EUA na guerra contra o narcotráfico. A designação de vários grupos criminosos como organizações “terroristas” serviu para justificar ataques militares contra pequenas embarcações supostamente usadas para o tráfico de drogas, utilizando a segurança nacional como pretexto para o que, na prática, se tornaram execuções extrajudiciais no mar, resultando na morte de pelo menos 190 pessoas, incluindo pescadores sem envolvimento aparente com o narcotráfico.

Além disso, acusações de narcotráfico foram empregadas para atacar adversários políticos, como Nicolás Maduro. Em março, o New York Times reportou que o Departamento de Justiça dos EUA investigava o presidente colombiano Gustavo Petro por supostos laços com o narcotráfico. Em outubro, o governo americano sancionou Petro, sua esposa, seu filho e o Ministro do Interior, alegando que ele permitiu que cartéis de drogas prosperassem e “inundassem os Estados Unidos e envenenassem os americanos” com cocaína colombiana.

Operação da DEA Desestabiliza Acordo de Paz Colombiano

A história completa de como uma batalha oportunista na guerra contra o narcotráfico dos EUA deu origem à Segunda Marquetalia nunca havia sido totalmente contada. No entanto, uma investigação conjunta de Drop Site e Intercept Brasil revelou como uma operação encoberta da DEA mirou um líder das FARC e negociador de paz, conhecido como Jesús Santrich. Santrich havia assinado os Acordos de Paz, concordando em depor as armas e se tornar um congressista colombiano. Mas, quando os Estados Unidos solicitaram sua extradição, apesar da fragilidade do acordo de paz, Santrich abandonou a vida civil e lançou a Segunda Marquetalia.

“Este caso criou a Segunda Marquetalia”, afirmou Elizabeth Dickinson, diretora de programas para a América Latina e o Caribe do International Crisis Group. O caso de Santrich ilustra a estratégia do Departamento de Justiça de criar casos antinarcóticos de alto perfil, mesmo com as graves consequências políticas que podem gerar em outros países. Embora o motivo exato da operação da DEA contra Santrich não seja totalmente claro, alguns colombianos acusaram os EUA de chauvinismo e interferência política.

Detalhes da Investigação: Informantes, Provas e Consequências

A investigação de Drop Site e Intercept Brasil, baseada em centenas de páginas de expedientes judiciais e policiais americanos, um relatório da Comissão para o Esclarecimento da Verdade da Colômbia, uma denúncia judicial colombiana, uma investigação das Nações Unidas, documentos de extradição e múltiplas entrevistas com um dos coacusados de Santrich, Armando Gómez, revelou achados cruciais:

  • As negociações para traficar cocaína, que levaram à prisão de Santrich, foram iniciadas por um informante da DEA que trabalhava para a agência há anos, sob a direção de agentes especiais em Miami e Bogotá.
  • Todo o dinheiro envolvido no suposto negócio de drogas, incluindo milhões de dólares em notas falsas, foi fornecido pelo governo americano. Os cinco quilos de cocaína trocados na operação foram providenciados por um indivíduo com laços muito limitados com as FARC, que agora é uma testemunha protegida do Departamento de Justiça dos EUA.
  • Santrich teve um envolvimento tangencial no acordo de drogas, após ser pressionado por informantes da DEA para uma reunião. Ele participou de apenas dois encontros durante os nove meses da operação, ambos após a troca da cocaína.
  • Durante a primeira administração Trump, o Departamento de Estado recusou-se repetidamente a cooperar com tribunais colombianos, negando pedidos de evidências mais sólidas contra Santrich para determinar sua extradição legal.
  • A operação enfraqueceu os acordos de paz, contribuiu para a criação da Segunda Marquetalia e gerou uma investigação da ONU, que concluiu que a operação pode ter sido dirigida por um “agente provocador”, embora não o tenha identificado explicitamente como informante da DEA.

Conexão Cocaína: O Início da Trama

A história da Segunda Marquetalia remonta a novembro de 2017, quando um representante de um cartel mexicano, Marco Aurelio García Weinberg, aguardava uma entrega de cocaína no lobby de um hotel em Bogotá. Por meses, ele e um parceiro, ambos alegando representar o Cartel de Sinaloa, negociavam um acordo de tráfico de cocaína com um grupo de colombianos. Naquele dia, Marco estava prestes a receber uma amostra de cinco quilogramas da cocaína “mais pura”, conforme documentos do Departamento de Justiça. Se a qualidade fosse aprovada e o transporte para os EUA bem-sucedido, os traficantes mexicanos prosseguiriam com um acordo multimilionário de 10.000 quilogramas para a América do Norte e Europa.

Armando Gómez, empresário colombiano de 69 anos, entrou no saguão do hotel com uma mochila marrom cheia de cocaína. “Cheguei, entrei no hotel e o vi sentado em uma poltrona”, relatou Gómez a Drop Site News e Intercept Brasil, em entrevistas concedidas da FCI Atlanta, prisão federal onde esteve detido até sua libertação em abril. Ele se aproximou de Marco, deixou a mochila no chão e disse: “Olá, aqui está, sem problemas”, antes de partir para outras reuniões. Marco e seu parceiro examinaram a mercadoria e, satisfeitos, ligaram para Gómez e outros dois empresários colombianos para comunicar que desejavam prosseguir com o negócio de 10 toneladas, avaliado em 15 milhões de dólares.

Para mais informações sobre o impacto da política externa dos EUA na América Latina, consulte Intercept Brasil.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *