terça-feira , 2 junho 2026
Foto: Divulgação/Raízen
Foto: Divulgação/Raízen

Pacto extrajudicial: Raízen corre contra o tempo para evitar recuperação judicial

A Raízen, uma das maiores empresas de energia do Brasil e controlada pela Cosan, encontra-se em uma corrida contra o tempo para reestruturar seu vultoso passivo financeiro e, assim, afastar a possibilidade de um processo de recuperação judicial convencional. A companhia estabeleceu um prazo limite crucial: até o dia 8 de junho de 2026, precisa consolidar um plano extrajudicial com seus credores. Esta complexa operação envolve a gestão de um passivo que, conforme informações divulgadas, ultrapassa a marca de R$ 65 bilhões.

A urgência da situação levou a empresa a intensificar as negociações e a implementar uma série de estratégias financeiras. O objetivo central é garantir a liquidez e a sustentabilidade de suas operações, buscando um acordo que satisfaça as diversas partes envolvidas e evite as implicações de uma intervenção judicial mais profunda.

Estratégia financeira e aportes cruciais para a Raízen

A petição inicial para a recuperação extrajudicial foi protocolada pela Raízen em 11 de março deste ano, marcando o início formal de sua estratégia de reestruturação. O plano da companhia foca em três pilares principais: a negociação direta de seus passivos, a venda de ativos operacionais localizados no exterior e a injeção de novos recursos por parte de seus acionistas controladores.

Parte fundamental dessa engenharia financeira é a previsão de um aporte de R$ 3,5 bilhões em dinheiro novo, proveniente da petroleira Shell. Em um posicionamento oficial, a multinacional anglo-holandesa classificou essa injeção de capital como uma medida “prudente e necessária para enfrentar os desafios financeiros” da Raízen. Adicionalmente, o desenho técnico da reestruturação inclui um aporte secundário de R$ 500 milhões da Aguassanta Participações, que é o veículo de investimentos da família do empresário Rubens Ometto.

Proposta aos credores e o impacto acionário

A principal cláusula apresentada aos credores pela Raízen propõe a conversão de 45% do saldo das dívidas reestruturadas em frações acionárias da própria companhia. O preço sugerido por papel foi fixado em R$ 0,25. Essa precificação, que aplica um desconto sobre a cotação atual de mercado, terá como consequência a diluição da participação direta que a Cosan e a Shell atualmente mantêm na estrutura acionária do negócio.

Essa medida visa aliviar a pressão sobre o caixa da empresa, transformando parte do endividamento em capital próprio. No entanto, a aceitação dessa proposta pelos credores é um ponto crucial e tem gerado debates, especialmente entre os diferentes perfis de investidores envolvidos.

O papel do BTG Pactual na reconfiguração acionária

As tratativas entre a administração da Raízen e o mercado financeiro sofreram uma mudança de rumo após fundos geridos pelo banco BTG Pactual desistirem de um aporte direto de R$ 5,5 bilhões na divisão de distribuição de combustíveis da rede. É importante ressaltar que o banco de investimentos não figura na lista de credores institucionais diretos da distribuidora de etanol.

Em contrapartida a essa desistência, o BTG Pactual coordenou uma robusta capitalização de R$ 10 bilhões diretamente na holding controladora, a Cosan. Desse montante, o próprio banco injetou R$ 4,5 bilhões, a gestora Perfin aportou R$ 2 bilhões, e a Aguassanta direcionou R$ 750 milhões. Essa transação garantiu ao trio o controle de 55% do capital votante da Cosan, o que, por sua vez, fortalece indiretamente o suporte financeiro de curto prazo sobre a Raízen.

Perfil da dívida e resistência dos credores

O perfil da dívida da Raízen revela uma divisão clara entre os credores. Os bancos comerciais concentram aproximadamente 40% das pendências em aberto e têm liderado os esforços para a assinatura do acordo extrajudicial. Para que o plano obtenha a homologação definitiva da Justiça, é necessário o aval formal de pelo menos metade das frentes de crédito elegíveis.

Os 60% restantes do passivo estão distribuídos no mercado varejista, principalmente entre investidores de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs). Esse bloco de credores tem demonstrado forte resistência às propostas de conversão de títulos em ações, justificando a posição pela intenção de preservar papéis de renda fixa que oferecem taxas de juros mais elevadas, preferindo a manutenção de seus investimentos originais.

Venda de ativos e perspectivas futuras

Para manter a liquidez do caixa durante este período de reestruturação, a Raízen acelerou a venda de patrimônio. Usinas de cana-de-açúcar localizadas no Brasil já foram liquidadas como parte dessa estratégia. Atualmente, o departamento de relações com investidores da companhia está negociando a venda de refinarias e postos de combustíveis na Argentina, em transações internacionais estimadas em mais de US$ 1 bilhão.

A direção da Raízen mapeia três saídas possíveis até o término do prazo estipulado, buscando um desfecho que evite a recuperação judicial. A Cosan e a Raízen optaram por não se manifestar publicamente sobre o andamento das reuniões e negociações em curso. Acompanhe mais notícias sobre o mercado financeiro em Valor Econômico.

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