Uma investigação aprofundada revelou que um ex-ministro do governo anterior e empresas a ele vinculadas receberam um montante significativo de recursos de uma instituição financeira privada. A análise das declarações de Imposto de Renda do Banco Master, enviadas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado do Senado, apontou que o ex-ministro da Cidadania, Ronaldo Vieira Bento, e suas empresas receberam R$ 11 milhões diretamente do Banco Master em um período de dois anos.
A apuração detalha a transição de Ronaldo Vieira Bento do serviço público para o setor privado, atuando em empresas diretamente ligadas ao mercado de crédito consignado, modalidade que ele próprio ajudou a expandir enquanto ministro. As conexões financeiras e a subsequente falta de escrutínio parlamentar levantam questões sobre a influência e os interesses no setor bancário e em programas sociais.
Conexões financeiras e o papel de Ronaldo Bento no crédito consignado
Ronaldo Vieira Bento, advogado, ex-agente da Polícia Federal e filiado ao Republicanos desde 2023, desempenhou um papel crucial em 2022 ao autorizar empréstimos consignados para beneficiários do Auxílio Brasil, que na época substituía o Bolsa Família. Essa medida permitiu a concessão de crédito com desconto direto das parcelas na folha de pagamento, impactando milhares de famílias.
Após deixar o Ministério da Cidadania – atual Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome – entre março e dezembro de 2022, o ex-ministro migrou para a iniciativa privada. Ele assumiu cargos de diretor-presidente do Banco Pleno e de administrador da Mettacard Administradora de Cartões, ambas empresas ligadas ao conglomerado do Banco Master, que está sob investigação na Operação Compliance Zero da Polícia Federal por suspeita de fraudes financeiras.
Detalhes dos repasses e empresas envolvidas
Do total de R$ 11 milhões repassados pelo Banco Master a Ronaldo Vieira Bento e suas empresas, R$ 773,3 mil foram pagos diretamente ao ex-ministro como pessoa física. O restante foi direcionado a empresas nas quais ele atuava como administrador ou mantinha ligação societária.
A maior parcela dos valores, R$ 6,2 milhões, foi destinada à Meta Consultoria em 2025. Ronaldo Vieira Bento é sócio dessa empresa, criada em junho de 2023, que opera em Brasília e declara realizar atividades de consultoria em gestão empresarial e serviços de apoio administrativo. Em novembro de 2024, a Meta Consultoria formou uma sociedade com a CLT Participações para criar a Beta Serviços Financeiros, que foi encerrada em março deste ano. Durante a atividade dessa sociedade, a CLT recebeu R$ 1,2 milhão do Banco Master.
No período em que Ronaldo Vieira Bento administrou a Mettacard, entre agosto e dezembro de 2024, a empresa recebeu R$ 2,98 milhões do Banco Master. A Mettacard era uma empresa licenciada pelo Banco Master que oferecia um cartão de benefícios consignado para servidores públicos, aposentados e pensionistas, com juros menores e débito automático na folha de pagamento.
Controvérsias, liquidação e suspeitas de fraude
A liquidação extrajudicial do Banco Pleno foi determinada pelo Banco Central em fevereiro deste ano, devido a comprometimento financeiro, deterioração de liquidez, quebra de normas e descumprimento de decisões. Como parte das medidas, foi decretada a indisponibilidade dos bens de Ronaldo Vieira Bento, além de outros controladores e ex-administradores da instituição.
A Mettacard, por sua vez, anunciava convênios com prefeituras de sete municípios brasileiros, além de institutos de previdência e governos estaduais, como o do Paraná. Em novembro de 2024, o governo do Paraná bloqueou novos descontos em folha de pagamento dos cartões da Mettacard e da Credcesta, outra empresa licenciada pelo Banco Master, visando proteger servidores contra suspeitas de fraude e descontos indevidos, em meio às investigações da Polícia Federal. Um comunicado da época informou que as empresas haviam suspendido as atividades. O comunicado do governo do Paraná detalha as medidas adotadas.
O Sindicato Estadual dos Servidores Públicos da Agricultura, Meio Ambiente, Fundepar e Afins (Sindiseab) denunciou casos como o de um servidor que, após um empréstimo de R$ 1,2 mil, acumulou uma dívida de cerca de R$ 8 mil. A entidade destacou que muitos servidores com menores salários aderiram a esses cartões.
Investigações parlamentares e a ausência de apuração
Apesar das menções em comissões de investigação do Congresso Nacional, Ronaldo Vieira Bento não foi alvo de apuração aprofundada. Ele foi citado mais de uma vez na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e na CPI do Crime Organizado, mas os requerimentos para investigá-lo nunca progrediram.
O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) apresentou um requerimento para a convocação de Ronaldo Vieira Bento para a CPMI do INSS em dezembro de 2024. No entanto, o pedido não foi pautado para votação pela mesa diretora, e a CPMI foi encerrada em março deste ano sem a aprovação de um relatório final. O deputado Rogério Correia afirmou que Ronaldo Bento foi um “ministro tampão”, escolhido para facilitar empréstimos consignados a beneficiários do Bolsa Família, visando angariar votos para o ex-presidente Jair Bolsonaro.
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