
A sociedade brasileira tem sido confrontada com a brutalidade de um crime de tortura contra uma jovem doméstica grávida, ocorrido em 17 de abril, no Maranhão. Paralelamente, uma decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre produtos de limpeza de uma marca conhecida gerou uma onda de reações nas redes sociais e na mídia. A disparidade na comoção e mobilização pública em torno desses dois eventos levanta questões profundas sobre racismo, classe social e a seletividade do engajamento cívico no país.
Enquanto a violência sofrida pela trabalhadora doméstica expõe feridas históricas de desigualdade e impunidade, a controvérsia envolvendo a Anvisa e a empresa de produtos de limpeza desencadeou uma mobilização intensa, muitas vezes com conotações políticas. Este contraste não apenas ilumina as prioridades de diferentes estratos sociais, mas também a forma como narrativas são construídas e consumidas na esfera pública.
A brutal violência e a impunidade aparente
O caso de tortura chocou o país quando áudios da empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, de 5 de maio, foram divulgados pela imprensa. Neles, Carolina narrava com detalhes a agressão à jovem Samara, de 19 anos, que estava grávida de 5 meses e trabalhava como empregada doméstica em sua residência. As descrições incluíam tapas, murros, pisões nos dedos e ameaças com arma de fogo, dirigidas tanto à jovem quanto ao seu bebê.
A crueldade dos atos foi amplificada pela aparente sensação de impunidade da agressora, que compartilhava os relatos em um grupo de WhatsApp como se fossem feitos dignos de orgulho. A situação se agravou com a revelação do envolvimento de um agente do estado, o PM Michael Bruno Lopes, que teria auxiliado na tortura, colocando uma arma na boca da doméstica. Além disso, Carolina teria recebido auxílio de outro policial militar que, ao reconhecê-la, optou por não conduzi-la à delegacia, apesar dos hematomas evidentes na vítima, conforme relato da própria agressora.
A seletividade da comoção pública: entre a violência e o consumo
Apesar da gravidade e da repercussão midiática do caso de tortura, a comoção gerada não se comparou à mobilização observada em relação à decisão da Anvisa. A agência determinou medidas restritivas a lotes de produtos como lava-roupas e desinfetantes da Química Amparo (marca Ypê), devido à presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa, que pode causar infecções sérias. Essa notícia, divulgada dois dias após os áudios da tortura, provocou uma reação imediata e massiva nas redes sociais.
Imagens de pessoas consumindo ou utilizando os produtos da marca em atos de protesto, muitas vezes com um tom de desafio às autoridades sanitárias, viralizaram. A maioria dos envolvidos se identificava como
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