Uma aeronave de alto custo, adquirida pelo governo de Pernambuco com a finalidade declarada de expandir o atendimento aeromédico, tem sido utilizada pela governadora Raquel Lyra (PSD) para compromissos políticos e institucionais. A situação, revelada pela Folha de S. Paulo, levanta um debate sobre a prioridade dos recursos públicos e a transparência na gestão, especialmente em um ano eleitoral.
O avião, avaliado em R$ 64,3 milhões, foi anunciado como um reforço crucial para a saúde do estado, mas sua aplicação prática tem divergido significativamente do propósito inicial, gerando custos adicionais para o transporte de pacientes e captação de órgãos, que precisaram ser terceirizados.
Aquisição e o Propósito Aeromédico da Aeronave
A compra da aeronave, um modelo King Air 260 de matrícula PS-GEP, foi finalizada em julho de 2025, com a entrega ocorrendo em dezembro do mesmo ano. O investimento de R$ 64,3 milhões foi realizado com verbas da Secretaria de Defesa Social, e a divulgação oficial, feita pelo Grupamento Tático Aéreo de Pernambuco, enfatizou a importância do equipamento para a saúde pública.
Na ocasião, foi amplamente destacado que o principal objetivo era “ampliar o atendimento aeromédico”, garantindo mais agilidade e segurança no transporte de pacientes e equipes em missões críticas. O termo de referência da licitação, inclusive, exigia que o avião fosse equipado com um kit aeromédico específico para resgate e transporte, um item que custa quase R$ 400 mil, conforme dados do Portal da Transparência.
Desvio de Finalidade e Agendas Oficiais da Governadora
Apesar do anúncio focado na saúde, a aeronave teve seu equipamento médico removido logo em dezembro de 2025, pouco após a entrega, para transportar a governadora Raquel Lyra a Brasília. Lá, ela participou de reuniões com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e com o presidente de seu partido, Gilberto Kassab.
Em maio de 2026, o avião foi novamente empregado para deslocamentos da governadora a diversas localidades, incluindo o Agreste pernambucano, São Paulo e Brasília. Esses usos se inserem em um contexto de agenda política e compromissos oficiais, em um ano em que Raquel Lyra disputará a reeleição.
Impacto nos Serviços Essenciais e Custos Adicionais
Enquanto a aeronave adquirida para fins aeromédicos era utilizada em agendas políticas, o governo de Pernambuco se viu obrigado a recorrer a empresas de táxi aéreo privadas para realizar missões de saúde urgentes. Segundo o jornal, o estado precisou acionar esses serviços para a remoção de um paciente e para uma operação de captação de órgãos destinada a transplante.
O custo total dessas operações terceirizadas alcançou aproximadamente R$ 100 mil, evidenciando um paradoxo: um avião de R$ 64,3 milhões, comprado para atendimento médico, não estava disponível para essas emergências, gerando despesas adicionais aos cofres públicos. Este cenário levanta preocupações sobre a eficiência e a priorização dos investimentos na área da saúde.
Justificativas do Governo e a Natureza “Multimissão”
Em resposta aos questionamentos, o Executivo estadual declarou que o uso da aeronave ocorre exclusivamente em missões institucionais de interesse público, seguindo critérios técnicos, operacionais e legais. O governo também ressaltou que a maior parte das viagens da governadora é realizada por meio de voos comerciais, minimizando o impacto do uso do avião oficial.
A licitação para a compra da aeronave, segundo o jornal, previa um modelo “multimissão”, que incluía entre suas finalidades o transporte de autoridades, além do deslocamento de forças de segurança, órgãos, doentes e ações de defesa civil. No entanto, a prioridade dada ao transporte de autoridades em detrimento das missões aeromédicas, especialmente após a remoção do kit médico, continua a ser um ponto de debate e escrutínio público. Acesse mais informações sobre o tema na Folha de S. Paulo.
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